quinta-feira, 24 de julho de 2014

Quando o bebé deixa de existir...

- Por Filipa Barros - 

Era sexta-feira e o aniversário da minha mãe. Tinha combinado com a minha irmã prepararmos o bolo e o jantar durante a tarde. Eu estava grávida de 10 semanas, a minha avó (materna) tinha morrido há menos de dois meses, andávamos todos entusiasmados e felizes!

Quando saí do trabalho reparei num spotting nas cuequinhas, liguei à Saúde 24 que me aconselhou a ir ao centro de saúde, onde nem me observaram e mandaram logo para a urgência de obstetrícia. Estava calma; como sou informada e curiosa tinha lido que o spotting é normal em muitos casos... Fui vista nas urgências, estava curiosa para ver o ecrã do ecógrafo que estava virado para o outro lado, sentia-me bem, não tinha dores, afinal era dia de festa!

'Se estiver grávida é de 7 semanas e não de 10'
'Não pode ser, a última menstrução foi a 25 de maio'

Ele saiu e entraram mais duas ou três pessoas... As palavras 'gravidez não evolutiva' foram um murro no estômago, as lágrimas começaram a cair sem controlo...

'O coração ainda bate... não podemos fazer nada... volte 3ª feira...' O chão desapareceu e o mundo ficou turvo...

Saí a chorar, sentei-me num banco e liguei ao meu Zi que estava a trabalhar longe: 'não há bebé nenhum...'

A minha irmã foi-me buscar e lá fomos nós preparar a festa... Cozinhar, mesmo a chorar, naquela tarde, ajudou-me a não ficar louca. Foi o aniversário mais triste que alguém já teve... A frase 'hoje é dia de festa' despedaçou-me as entranhas... Fumei um cigarro na varanda, já não fumava há 3 anos...

Pouco disse nos dias seguintes, logo eu... a 'metrelhadora falante' ficou sem palavras... Foi o pior fim-de-semana da minha vida, chorei, dormi, chorei, comi doce de pêra com queijo, chorei, vi tv mas não sei o quê, chorei... só estava bem abraçada a ele, mas o fim de semana acabou e tive de ir trabalhar.

Contei tudo à minha chefe, mas toda a gente sabia que algo se passava, eu não era eu... Na terça voltei ao hospital, a mesma conversa: 'O coração ainda bate... não podemos fazer nada... volte 6ª feira...'

Quinta tinha consulta no centro de saúde, mas acordei diferente... sabia que ia ser naquele dia... Fui à consulta, contei tudo ao médico de família e depois fui com a minha irmã novamente à urgência. No caminho já tinha contrações de 5 em 5 min. Enquanto estive na sala de espera tive um aborto espontâneo, enquanto as grávidas felizes entravam à minha frente para ter os bebés. Quando fui vista já tinha expulsado tudo e estava tudo bem comigo, fisicamente.

Nessa tarde dormi muito, estava exausta... Os dias seguintes não foram fáceis, tive de explicar várias vezes o que aconteceu, porque já se notava. Fiquei muito triste e até zangada... Para piorar, uma data de pesssoas que eu conhecia anunciavam felizes as suas gravidezes...


Pensei 'porquê a mim'? Senti-me sozinha na minha dor, eu não conhecia ninguém que tivesse tido um aborto até ter o meu... É um assunto tabu, não se fala, como se fosse motivo de vergonha, como se fosse culpa nossa, e afinal até conhecia várias pessoas... E afinal eu tinha hipotiroidismo e ninguém sabia. O meu corpo
escolheu-me a mim em vez do invasor...

Partilho o meu aborto para que outras mulheres saibam que acontece e muitas vezes, que a culpa não é nossa e que não fizemos nada de mal, mas acima de tudo que é apenas um contratempo, porque depois tudo se resolve, o tempo cura tudo e o tão desejdo e esperdo bebé vai chegar. Eu perdi um bebé, uma parte de mim morreu naquela semana, há coisas que mudaram para sempre, mas hoje a Carlota dorme ao meu colo enquanto escrevo só com uma mão e uma lágrima rechonchuda cai pela minha cara sorridente.

7 comentários:

Mamã C. disse...

Que lindo Filipa!
Um texto mt bonito e emotivo.. Decerto irá ajudar alguém que tenha passado pelo mesmo!

Filipa - minifeijao.blogspot.pt disse...

<3 beijinho Filipa

Ni disse...

Felizmente nunca passei por um, mas já estive com imensas mulheres durante os seus abortos. Maravilhoso testemunho Filipa!

Suzi Correia disse...

É verdadeiro e sentido esse testemunho,também tive um aborto espontâneo com 7 semanas é mt doloroso e pesado a nível emocional. Mas não se pode desistir até atingir o objetivo q tanto queremos, q é ser mamã! Felizmente tenho um Duarte com 3 anos,é a minha lua e o meu sol, o meu mundo sem duvida. Não desisti e consegui! Força para quem passar pelo mesmo não é fácil passar por este acontecimento q trás um sentimento de impotência,culpa,tristeza........ mas há q voltar a tentar!

Ana Carvalho disse...

Que lindo testemunho. Quando engravidei é que me dei conta da possibilidade de um aborto espontaneo... fiquei com muito medo. Felizmente correu tudo bem. Apercebi me também que é mais comum do que imaginamos :(

Silvia Silva disse...

Adorei o teu testemunho ;) Infelizmente sem bem a dor por que passaste mas Felizmente estamos ambas aqui com 2 bebés maravilhosos !! Beijinho enorme

Joana Cunha disse...

A Natureza lá sabe o que faz...dizem todos, mas deve ser uma dor enorme. Gostei de ler este testemunho profundo, fez-me ter noção da realidade. Beijinho grande <3